Finalmente decidi comunicar ao meu coordenador que sou voluntária para ir trabalhar para a Horta (Açores) durante cerca de dois meses. Não é certo que vá, apenas mostrei a minha disponibilidade… Confesso que tenho algumas dúvidas em relação a esta decisão. Se por um lado acho que era muito positivo quebrar um pouco a rotina e ir fazer outro tipo de trabalho num lugar que não conheço, por outro lado apavora-me a ideia de estar dois meses (talvez um pouco mais) longe de casa e dos meus amigos. Talvez me sinta só, talvez a ilha seja pequena demais para mim, talvez “não dê conta” do trabalho que me espera... Tantas dúvidas e tanto medo… Logo se vê!!
Pela primeira vez decide apagar um post… pensei que nunca o iria fazer, porque achei, que bem ou mal, tendo razão ou não, o que escrevia era o que me apetecia, com destinatário ou não, real ou fantasia…era o que sentia na altura e que por isso, mesmo não concordando num momento posterior, tinha que “respeitar” algumas opiniões ou sentimos passados… Hoje quis defender-me de algumas acusações graves e resolvi, um pouco impulsivamente escrever sobre isso… Não costumo ser tão impulsiva, costumo ponderar nas consequências dos meus actos, e nem pensei o que poderia acontecer a algumas pessoas que têm sido muito minhas amigas e confidentes…
Há pessoas que nem merecem, pelas atitudes tomadas, um segundo da minha atenção não merecem uma mágoa minha!
É melhor para todos que esse post chamado “convencida!!” nem conste num espaço que é meu… é melhor para as minhas amigas, é melhor para quem não merece tanto destaque e acima de tudo é melhor para mim que tenho que seguir em frente, que embora desiludida não tenho que dar importância a pessoas que valorizam mais o que dão aos outros do que o que recebem…
Hoje fui até à praia. Um dia fantástico, um sol brilhante, o mar calmo (e frio), óptima companhia… O pessoal exibia as suas barrigas, os rapazes jogavam à bola, as criancinhas faziam castelinhos na areia… Todo um cenário montado para que esta manhã corresse muito bem! Nisto chegam 4 rapazes com visíveis problemas de ego e de afirmação acompanhados de um grande cão da raça rottweiler… chegaram, e quando eu pensava que o suposto dono lhe ia pôr a trela… tirou-a e soltou “o bichinho” que desatou a correr pela praia… mijou nos castelinhos dos meninos, exibiu a sua força em “brincadeirinhas” com o rapaz e calculo eu, elevou o ego do dono ao máximo (pelo receio dos pais pelas suas crianças e meu próprio) que se deve ter sentido a pessoa mais respeitada e temida da praia…
Confesso que não sou a pessoa apropriada para julgar esta situação, porque tenho um medo inexplicável por cães. Mesmo os cães que gosto, que conheço, que são de pessoas amigas ou de família. O meu primo tem um “serra da estrela” (a quem eu chamo de “urso”) que para mim é o cão mais lindo que já vi, com os olhos extremamente meigos e mesmo desse eu tenho medo… É um medo que não consigo explicar! No entanto, sempre que eles andam com o “urso” têm o máximo cuidado para não assustar as pessoas (até pelo tamanho e energia do “bicho”) e cuidados de higiene…
O que hoje eu assisti foi uma manifestação de estupidez e de falta de respeito pelos outros… Se há pessoas que não sabem ter animais, tratar deles, cumprir regras de segurança e higiene, não podem tê-los… estava realmente muita gente na praia, muitos miúdos, muitos bebés…
No final fiquei com vontade de fazer queixa a alguma autoridade… mas confesso a minha ignorância… A quem me deveria ter dirigido??
Hoje adorei o “jantarinho de gajas”. O convívio com as minhas amigas, o nervoso de cada uma delas, o conhecer um bar muito simpático da cara-metade de uma delas, a vitória de Portugal… Durante o jogo reparei que uma menina de uns 10 anos não parava de olhar… talvez porque tinha uma bandeira igual à dela na cabeça…No final veio dar-me um abraço. Tudo se conjugou para que estas horinhas que passei hoje com elas fossem muito boas… mesmo!
Já aqui referi que, de quando em quando, eu reúno-me com umas amigas e fazemos o chamado “jantarinho de gajas”. Já referi ainda que a maioria é casada e duas delas têm filhos, o que não costuma impedir a realização desta reunião já há bastantes anos. Desta vez há uma novidade (pelo menos na escolha da data) … vai ser quinta-feira!
Quando vim do Porto tinha uma “carrada” de mail’s a marcar e desmarcar o jantar, ora para dia 24, ora para dia 25, dependendo da disponibilidade de cada uma… Para mim era preferível quinta-feira, porque já tinha coisas “faladas” para sexta. Depois pensei que Portugal jogava nesse dia e que eu gostaria de ver o jogo. Mas achei que o jogo não era motivo suficiente de não ir ao jantar (acho que tirando eu ninguém se lembrou).
Hoje recebo dois mail’s a que achei bastante piada de duas delas:
Um deles dizia: “Olá malta, apercebi-me agora que na quinta-feira, dia 24, é dia do jogo de Portugal para os quartos de final, às 19:45, o que calha mesmo bem porque o restaurante onde vamos tem televisão projectada na parede. Sendo assim, se concordarem, amanhã vou já lá reservar mesa, mas para as 19:30, ok?” (Beijinhos e assinatura).
Ao que alguém respondeu:
“Fantástico!! não são só os gajos que se juntam para ver a bola!”
Não pude deixar de achar alguma piada à imagem de umas quantas gajas a “enfrascarem-se” e a comer caracóis e tremoços, enquanto os “maridinhos” ficam em casa a aquecer jantares e a tomar conta de bebés…
Cada vez mais, contrariando a opinião de muitos, acho que temos “sentimentos” que se explicam pelo instinto que alguns animais têm. Sei que é uma opinião, que em muito difere daqueles que afirmam que aquilo que nos distingue dos animais é exactamente a racionalidade. Não discordo totalmente!! Só acho que, por trás dessa tentativa de diferenciação, perdemos algumas capacidades que os outros animais ainda têm, como por exemplo sentir o medo do adversário ou como um amigo meu dizia “cheirar a insegurança”, mesmo que esta fosse muito bem disfarçada… O chamado “sentimento de posse”, não é mais do que instintivamente a preocupação pela delimitação do território, da posse da fêmea ou macho e das crias…
Um dia destes contava-me uma amiga que a reacção de uma conhecida comum, quando soube do casamento de um ex-namorado foi a de julgar que a actual mulher era uma coitada porque há não sei quantos anos atrás, ele tinha sido muito apaixonado por ela… Ela teve que referir que muito provavelmente ele já a teria esquecido e que acreditava mesmo que fosse apaixonado pela actual mulher, o que a deixou desolada. Alguém tem uma explicação racional para isto? (a não ser aquele sentimento de posse que de uma forma cruel, talvez inconsciente, nos faça duvidar que algo, ou alguém, que não queremos mais, também não nos queira mais…).
Alguém me consegue explicar a dificuldade que alguns têm em assumir perante ex-namorados, ou ex-maridos que estão outra vez apaixonados? Porque é que alguém tem a necessidade de mostrar a outro, que “o lugar dele” não foi preenchido, quando o foi efectivamente? Posso referir também os “ciúmes” de antigos namorados…
Acho que o problema deve-se a considerarmos como nosso, como se de uma coisa se tratasse, outro ser humano. E tal como guardamos objectos velhos que não vamos mais usar, mas que não queremos “desfazermo-nos” deles, tentamos guardar também os outros… A tal posse… Para quê guardar algo que já não precisamos, que já não queremos? Para quê a necessidade de mostrar aos outros, que ainda conseguimos influenciar a vida de outro que foi “nosso”, para quê a necessidade de mostrar que conhecemos muito bem um antigo namorado(a) (muitas vezes à actual)?
Será uma preocupação em sentirmos que fomos mais importantes, que (de certeza) o relacionamento connosco foi mais marcante? Não será isto uma “luta” pela posse dos sentimentos do outro, uma vaidade de considerarmos que o outro foi mais feliz connosco do que com qualquer outra pessoa? Porque nos preocupa tanto “passados” felizes e marcantes? Será que inconscientemente não preferíamos que não houvesse passado ou que o passado do outro fosse algo que este preferia esquecer? A insegurança terá a ver com o facto de não nos sentirmos “donos” do outro? O ciúme e a inveja, não serão mais do que consequências (mais humanas) deste instinto de posse? O ciúme pelo medo de perder, insegurança… A inveja, o desejo de ter o que o outro tem que é melhor (macho melhor, território mais fértil, ou seja, casa maior, carro melhor…).
A delimitação do território, a posse, a sedução, a luta dos machos pela fêmea, a escolha do melhor companheiro… não são objectivos exclusivamente humanos… Porque nos achamos então tão racionais quando uma grande parte de nós tem a ver com “instintos” tão básicos próprios de qualquer outro “bicho”?
É engraçado que ultimamente tenho ouvido falar muito em mentiras. Numa viagem com um amigo meu, na quinta-feira, enquanto falávamos sobre as potencialidades desconhecidas do nosso cérebro, na possibilidade de alguns em prever o futuro, em sentir algo presente que se passaria noutro lado qualquer, na ligação inexplicável dos gémeos… falámos em telepatia…
Imaginámos que com a provável falta de recursos, o ser humano iria arranjar formas de poupar energia… uma delas seria a comunicação via telepatia. Acho mesmo que todos nós temos essa capacidade desde que devidamente treinada (opinião). Depois falámos da “mentira telepática”, ou seja, se já é tão difícil para alguns o guardar de um segredo, se há outros que mentem muito mal, como seria o aperfeiçoamento de mentir a quem nos lê o pensamento? Foi uma questão curiosa… infelizmente a mentira faz parte da nossa sociedade e por isso não me esqueci de a incluir nesta forma de comunicação avançada…
Hoje, li num blog amigo, uma questão: mas porque será que tantas vezes a mentira parece o caminho mais óbvio? À qual eu não consigo responder… Não consigo entender porque é que alguém opta por enganar, muitas vezes aqueles que gosta. Não consigo entender, a não ser por cobardia ou conveniência egoísta, quem opta por perder a confiança dos outros… há muito tempo que se diz “que a mentira tem perna curta”.
Lembro-me que quando era pequena, o meu pai pedia para escondermos as prendas da minha mãe e para não lhe dizermos nada. A minha mãe, sempre curiosa, perguntava se este ano o pai já lhe tinha comprado a prenda, e eu, que sei mentir muito bem, conseguia convencê-la sempre que não fazia a mínima ideia se já tinha comprado ou não… É obvio que estava a mentir… Mas o meu objectivo não era enganar, não era evitar situações desagradáveis para mim própria, nem era cobardia de enfrentar um erro meu perante os outros… O meu objectivo era participar numa surpresa! E não me sentia culpada por mentir…
Então há mentiras válidas… então o problema da mentira é o objectivo pelo qual a usamos… e os objectivos que oiço por aí, normalmente não me parecem nada válidos: O não chatear alguém, a falta de coragem, a crueldade do engano, o ser mais fácil e conveniente ou mesmo só a desonestidade… Eu não me sentia mal em mentir porque se a minha mãe descobrisse, não iria ficar magoada comigo, nem iria perder a confiança em mim… acho que é este o exercício que faço para saber se a minha mentira é válida ou se é desonesta. È só entender porque estou a mentir e se a reacção da pessoa a quem menti era negativa se descobrisse a verdade…
Devia estender a roupa e passar a ferro. Devia limpar e arrumar a casa, porque vou receber um amigo da minha irmã na segunda. E porque vou até ao IKEA adquirir imensas pequenas coisas para alterar o rosto da minha casa. E porque a próxima semana vai ser bastante preenchida… Uma ida ao Porto na terça, um jantarinho de gajas na quinta, ida ao IKEA, visitinha ao afilhado mais novo, hidroginástica, etc…
Devia isso tudo… mas não me apetece! E devia deitar-me cedo porque amanhã quero ir à praia, e devia comprar um microondas, e devia responder ao mail do meu tio. E devia ir àquele sítio comprar as coisas que a minha mãe me pediu. E devia ir ter com a Sónia para ela me emprestar o colchão. E devia comprar tecido e ir à Senhora amiga para lhe pedir que me faça forros as almofadas. E devia ir lavar o carro… e devia, e devia e devia!!
Bem, amanhã o dia tem 24 horas…
Será que não vês que, quando todos nos abandonarem ficamos só nós?
Será que não vês que queremos o mesmo, que partilhamos as mesmas palavras e o mesmo sonho?
Eu também não tenho reparado…
Estou num estado lastimável! Cheguei há pouco do Algarve, onde fui… trabalhar. Levei o necessário para tirar uma horinha de praia, mas não deu… Sinto-me cansada, chateada e extremamente frustrada. Maratonas de compras para um andar: máquina de lavar roupa, microondas, televisão e respectivo móvel, louça, panelas, talheres, lençóis, toalhas, enfim, tudo que possam imaginar para se encher uma casa para alguém passar férias… Estou mesmo chateada. O termómetro do meu carro chegou a marcar 41º e eu a carregar televisores… a 5 minutos da praia! Consegui ver apenas 20 minutos do jogo de Portugal, as europeias “passaram-me ao lado”…E só de pensar que terça-feira de manhã já estou no Porto…
Confesso que sou uma gaja que chora muito… ou são filmes que me comovem, ou concertos onde sinto aquela magia de uma entrega total do artista e uma devoção do público quase inexplicável por um humano, ou é batido um record pessoal, ou obtida uma vitória de uma equipe, um reconhecimento de uma obra, ou uma letra de uma música ou poema… acima de tudo choro com o êxito dos outros, quando é humildemente merecido e com os sentimentos que não são meus. Imagino o que alguns sentem, quando, fazendo aquilo que gostam, e depois de muito trabalho e “acidentes de percurso”, conseguem finalmente a resposta positiva que esperavam, a reacção dos outros que sempre sonharam. Imaginam o que alguns sentem quando o seu trabalho é aplaudido por cem mil pessoas (num concerto, por exemplo)? Calculam a felicidade que este artista sente? Calculam o que um compositor sente, quando vai na rua e houve as suas letras serem trauteadas por outros? Devem ser sensações únicas, as quais nunca vou sentir… Mas choro.
Hoje chorei. Quando algumas pessoas discursam, também choro. Um obrigado dito com sinceridade, perante outros à volta de uma mesa é algo a que também não sou capaz de reter a lágrima… E tu, rapaz, tens esse dom, fazes-me sempre chorar nos teus discursos…
Acabei de ajudar a minha mãe a arrumar a louça e agora vou para o quarto porque ela me mandou. Ela disse-me para dormir, mas eu fecho a luz e os meus olhos para ela não saber que fico sempre a conversar com o meu amigo urso.
A minha mãe é a mãe mais bonita que eu já vi, mas parece mais velha que as outras mães, não pinta os lábios como as outras, nem veste roupas bonitas como as outras nem é doutora como as outras… mas faz os melhores bolos que já comi. Faz bolos tão bons que as outras senhoras pedem-lhe e depois dão-lhe dinheiro. Enquanto os bolos ficam no forno, dançamos e fingimos que somos ricas como as senhoras das revistas. Nós não temos dinheiro para comprar revistas, mas quando vamos ao supermercado podemos vê-las, porque eles deixam vê-las sem comprarmos, não é como o Senhor João da papelaria… O meu pai não sabe que a minha mãe faz bolos e recebe dinheiro das outras senhoras que não sabem fazer bolos, porque senão tirava-lhe o dinheiro todo para ir jogar… pelo menos é o que ela diz. Por isso é um segredo nosso e eu gosto de ter um segredo.
O meu pai faz móveis na fábrica, pelo menos agora, mas já fez outras coisas. Não usa gravata como os pais dos meus amigos e às vezes cheira a vinho e grita com a minha mãe e se eu não fico sossegadinha também grita comigo. Eu não gosto do meu pai, não gosto de como ele cheira e não gosto que ele grite com a minha mãe nem que diga que eu estou gorda e que não posso empanturrar-me em comida porque não temos dinheiro.
Às vezes o meu pai chega a casa muito contente, com muitas notas nos bolsos das calças e do casaco e diz que amanhã vamos ficar ricos… mas nunca ficamos.
A mãe diz que eu tenho que estudar muito para não ter que fazer bolos para as outras senhoras e ter dinheiro para usar roupas bonitas e para pintar os lábios…
Um dia, enquanto eu fingia que estava a dormir com os meus olhos fechados ouvi a mãe dizer que eu precisava de sapatos. Eu juro que não lhe disse nada porque sei que não temos dinheiro, mas é verdade que já me doem um bocadinho no dedo grande e que têm um buraquinho em baixo. Mas eu não me importo… ponho um bocadinho de plástico em baixo das meias e assim não entra água. O meu pai disse que tinham-no despedido e que não tinha dinheiro. Para a mãe falar com o padre porque há pessoas que dão sapatos novos para a igreja. Eu também não me importo que a mãe vá buscar os meus sapatos à igreja. Os sapatos que estão lá são de meninos ricos que têm muitos e por isso nem têm buraquinhos. Às vezes ficam grandes… mas eu depois cresço.
Agora que o meu pai não tem emprego eu não posso comer o pão antes de ir para a escola, mas eu não me importo porque no intervalo eles dão leite com chocolate e um pão com fiambre e tudo. Mas fico muito triste porque ele fica em casa e a mãe não pode fazer bolos e é muito chato porque eu também não como bolos pequeninos que a mãe faz na minha forma, iguais aos que ela faz para as outras senhoras.
-Vai-te deitar Sara… E não te esqueças de rezar!
E eu vou. Desta vez não falo com o meu urso…
-Olá menino Jesus, eu sou a Sara e vivo na minha casa com o pai e a mãe… eu sei que tu sabes onde é porque a minha mãe está sempre a dizer para não me portar mal porque senão vou para o inferno e que tu vês tudo e sabes onde é a minha casa e a minha escola. Eu só queria que arranjasses um emprego para o meu pai, para ele não passar o dia a gritar com a mãe e para ela poder fazer bolos…
Um caminho longo e ansioso por entre um pinhal vasto levou-me à vila. Segui as direcções dadas que me levaram à casa combinada. A casa era muito velha e suja. E quando entrei vi também que era muito pequena e baixa. Um rosto atento e meigo recebeu-me.
-Eu sou…
-Eu sei quem és. Interrompeu o rosto, estou à tua espera. Vens cá saber do teu amor. Vamos lá ver o que eles nos dizem.
O rosto baixo e magro vestiu uma veste branca e colocou uns colares, sentou-se e fez-me sinal para fazer o mesmo. Enquanto dizia umas rezas e baralhava umas cartas estranhas, observei, inquieta o que me rodeava. Uma sala pequena e humilde, decorada desordenadamente sem qualquer preocupação em mostrar algum planeamento nas cores combinadas, algumas figuras de madeira estilo africano dispersas, um sofá muito velho e mal estimado. A mesa, onde nos sentámos em frente uma à outra, estava cheia de pedras e terços, conchas e imagens, velas e anjos…
-Ai rapariga! Essa dor que carregas é uma cruz maior da que te está destinada, esse arrependimento vai-te matar… tens que te perdoar… ainda eras uma criança!
-Perdoar? Perguntei eu. Esquecer? É isso?
-Esquecer não, respondeu. Tens que perceber que eras muito jovem e os jovens fazem asneiras e dizem o que não querem. Ela já te perdoou e tu, se quiseres alguma serenidade na tua vida, tens que te perdoar… vamos começar?
Estremeci. Como podia, aquela mulher que nunca vi, saber de um segredo só meu, que nunca contei, por vergonha ou medo de punição por parte de outros, e que realmente me sufoca desde muito jovem.
Deitou as cartas como quis, a fazer um meio círculo. Demorou o tempo que quis, e começou:
-O teu destino não é o homem por quem perguntas. Esse homem nunca vai ser de ninguém… vai ter muitas mulheres e acabar sozinho… muitos traumas e medos o apavoram. Teve uma infância infeliz, não foi desejado pelo pai. Brigas e Castigos severos ainda o magoam e ele nunca se vai libertar dessa dor. É um bom homem, trabalhador, honesto… mas algo muito escuro paira sobre ele… Tu sabes que ele não dorme, não sabes? Sabes que os pesadelos não o largam… são os traumas, filha. São os traumas dos quais ele nunca se vai libertar… é um desgraçado!
Como é que ela sabia que passamos noites em claro, porque ele tinha medo de voltar a dormir? Como sabia, que tal e qual a uma criança, ele tremia de medo quase todas as noites? E que dormíamos com a luz acessa, e que me agarrava com tanta força enquanto dormia que chegava a magoar-me?...
-Mas, eu amo-o…
-Eu sei! Eu sei que o teu amor por ele é sincero, mas vocês vão percorrer caminhos diferentes…
-Vais ter um outro amor… Quando o perdoares vais ter outro amor, um amor mais calmo é certo, mas mais sincero, mais cúmplice… Vais ter filhos… talvez dois… E esses problemazitos financeiros vão terminar. Vejo também uma casa nova, não te consigo dizer se uma segunda casa ou se te vais desfazer desta. Tu gostas desta tua casa, não é?
Acenei com a cabeça.
Depois de uma hora de conversa e previsões, depois de ter uma justificação para muita coisa, depois de saber, entre outras coisas, que ia ter um acidente de carro sem gravidade, levantei-me da cadeira.
-Deixa-me ir à casa de banho?
-Claro filha, não ligues à desarrumação.
O resto da casa era igualmente humilde, era igualmente pequena e igualmente desarrumada. Reparei numa foto de criança, reparei em brinquedos, vi dois gatos serenamente instalados. Fui à casa de banho ainda a tremer. Duas escovas de dentes, uma de criança. As palavras “tens que te perdoar” não me saíam da cabeça… de alguma forma sabia que ela as iria repetir.
-Então adeus e obrigado.
-Filha! Chamou ela. Tem cuidado com a inveja de outra mulher… Ela está muito perto de ti. Tem cuidado! Há pessoas capazes de tudo para atingirem os seus objectivos… acende uma vela branca sempre que te lembrares, chama o teu anjo da guarda, fala com ele. Ele sabe como te proteger… e voltou a dizer: não te esqueças que tens que te perdoar… só assim terás descanso e acabarás com essa dor no peito que sentes todos os dias, só assim vais acabar com os teus pesadelos e com essa tristeza que te acompanha há tempo demais.
Saí. Voltei a atravessar a vila e o pinhal, lembrei-me que acredito muito pouco nestas coisas… mas então, como é que ela sabia do meu segredo? Como sabia das noites em claro com o meu amor e dos meus pesadelos? Como sabia ela que o meu amor era homem de muitas mulheres?
Raramente me sinto só, mas nesse dia confesso que senti aquele doloroso vazio a que chamam solidão. Dentro da minha própria casa, fechada naquelas paredes onde costumo sentir-me tão livre. Vasculhei livros, ocupei-me com trabalhos domésticos necessários, revivi fotos e sorrisos, li coisas minhas e dos outros. Nesse dia abri a minha arca, uma arca de palha oferecida há cerca de 14 anos, vesti a minha saia de escola secundária que guardo enrolada num nó, revi a minha mala castanha, a carteira onde guardava a minha semanada… reli cartas de amor e promessas para a vida…
Recordar implica, para mim, uma sensação de perda, uma lágrima de saudade… um passado a que disse um adeus obrigado, lugares que já lá não estão, ou se estão não os consigo sentir como antes, rostos e corpos roubados do meu pelo destino.
Por vezes espreito o passado, como revejo alguns amigos num café combinado à última da hora, e depois tenho uma enorme dificuldade em separar-me dele.
Sempre ofereci alguma resistência à novidade. Não gosto de conhecer sítios diferentes nem conviver com pessoas que não conheço. Sinto-me mais feliz nos lugares habituais, enquanto o são, com as pessoas de sempre. Gosto da cumplicidade ganha pelo tempo… esse tempo que já conheço, onde me sinto confortável. E tenho um enorme medo de enfrentar o futuro…
Assim, fico quietinha fechada nesse lugar que é só meu, a que chamo casa, de onde até esse dia, não tive necessidade de sair, nem de conhecer assustadores desconhecidos, nem tive que me habituar a lugares novos e diferentes e estranhos para mim.
Até esse dia recusava-me a sair para não enfrentar o futuro que poderia encontrar por aí, adiando mais um dia a minha vida e essas gentes e esses lugares que não conheço…
Hoje sei que, um dia, tenho que sair desta casa, enfrentar os assustadores desconhecidos e os lugares que não conheço… porque naquele dia senti-me muito só.
Também eu vi ontem, ao vivo, o péssimo espectáculo da cabeça de cartaz do quinto dia do Rock in Rio: a menina Britney Spears. Confesso que as minhas expectativas eram altas… não sendo uma fã da rapariga, achei que o espectáculo em si seria muito bom. Estariam reunidos (pensava eu) todos os condimentos para uma excelente actuação. Uma rapariguinha bonita, que sabe dançar, que reuniriam alguns bons bailarinos e que, julgava eu, até saberia cantar. Esperava assim uma actuação cheia de energia e luz e com um público eufórico… Nunca me senti tão enganada em muitos espectáculos que já assisti!
Um playback dos mais mal feitos que já assisti, aliás, pareceu-me que a artista nem sabia as letras das canções que canta, nem quando devia entrar… As coreografias extremamente pobres que me fez lembrar os saraus que os meus colegas da aula de ginástica ensaiavam no pavilhão da escola secundária no final de cada ano lectivo, ou uma aula de aeróbica treinada por amadores… A tal energia e euforia que esperava tornou-se numa desilusão geral, à excepção do público com menos de 14 anos.
Relativamente aos outros espectáculos que vi, e que “salvaram” a noite, as sugababes, sem pretensões nenhumas, conseguiram animar moderadamente os muitos que deslocaram ao recinto, surpreendeu-me muito positivamente a energia dos black eyed peas e a Daniela... essa, já eu a conhecia de vários concertos e continua com aquela energia contagiante que entrou no corpo de todos e fez levantar muito pó…
E continuas aí, nessa cozinha escura e velha, ao lado desse forno onde sempre fizeste o pão que me alimentou. E aí continuas, presa ao passado que te deixou, presa às tuas regras e religiões… Não vês que tudo te abandonou?
Os tempos mudaram, as regras também! E eu, minha senhora… cresci! Cresci e a tua aldeia ficou muito pequena para mim… Tive sonhos que não realizei e outros que agora são a minha vida. E continuarei a sonhar, porque como dizia um poeta “é o sonho que comanda a vida”.
Senhora de luto pára de rezar por mim. Não quero os teus anjos e deuses, não quero os teus sacrifícios e promessas, não mereço as velas que acendes… guarda a tua fé para te salvares…
Se só tenho cinco sentidos, como sei que estás comigo?
Não consigo responder ao como ou ao porquê, nem consigo prová-lo, mas sei-o.
Estranha sensação, essa certeza negada pela razão e pela racionalidade!
Nunca te vi, mas sei como é o teu rosto,
Nunca te beijei, mas conheço o teu gosto e cheiro,
Nunca te ouvi, mas a tua voz é com certeza aquela que imagino,
E o teu corpo… o teu corpo está comigo todos os dias.
Para completar a magia desta noite, a lua, sabendo que estava cansada e precisava de ajuda, conduziu-me a casa. Cúmplice, sabia da minha felicidade, sabia que tinha estado contigo!
Enquanto pensava o que te teria feito sorrir, senti que hoje a lua foi só minha…
Terá sido a saudade? O meu cheiro? Terá sido do meu colo? Do nosso abraço confortável… ou foi quando te disse que se falasses baixinho podias dizer-me tudo sobre a tua nova ama e até dizer mal…
Cada vez mais tenho a certeza que nos amamos de uma forma diferente que os outros não entendem, uma forma superior de trocar confidencias e abraços… e a lua sabe disso!
Não acredito nisto! Hoje foi o meu primeiro dia de trabalho depois de um longo período de férias e acreditem… Preciso de férias outra vez.
O dia começou bem… não consegui dormir à noite (fuso horário férias/ trabalho), não tinha comprado passe (esqueci-me), cheguei tarde (não é novidade) e tinha carradas de “porcarias” penduradas que não estava à espera… O meu carro resolveu pregar aquelas partidas que me deixam louca… Desta vez, sem eu fazer nada, fazia piscas conforme lhe apetecia.
Acho que ainda não tinha dito aqui que o meu carro tem vontade própria: O rádio funciona quando lhe apetece, o alarme toca nas alturas mais impróprias, nomeadamente em andamento, quando o rádio trabalha é normal o volume subir estupidamente quando carrego no acelerador e coisas do género… mas esta de fazer os piscas que lhe dá na veneta… essa é nova. Concluindo… oficina, mais uma depressão pequenina e hoje estou sem carro. Logo hoje!! Tenho que pedir boleia para ir à hidroginástica (coitado do meu colega que anda “a fazer piscinas” de um lado para o outro para me ir buscar e pôr a casa), não posso ir ver o meu afilhado mais novo (e acreditem que daqui a pouco morro de saudades) que está à espera (à demasiado tempo) de um beijo naquelas bochechas. E amanha transportes públicos… Fico à espera de uma conta choruda!