Um dia um anjinho veio ter connosco.
Estávamos perdidos, confusos, errados… Caminhávamos de “costas viradas” para aqueles que amamos.
Um dia conheci esse anjinho e com ele vivi momentos maiores, ensinamentos que jamais esquecerei… Mostrou-me sentimentos que não conhecia, sentimentos que as palavras não sabem dizer. Escolheu para si, ajudar os outros, ensiná-los. Um caminho penoso, muito sofrido… mas que em altura nenhuma ele cedeu. Foi um anjinho muito corajoso e determinado a mostrar-nos alguns ensinamentos como o Amor, a entreajuda, o respeito pelas escolhas dos outros, a capacidade de aceitar o que não podemos mudar, a fé…
Mostrou-me o verdadeiro significado da palavra coragem…
Ensinou-me a ser maior…
Esse anjinho, ontem, reuniu todos os que o amavam e despediu-se… E eu, com a calma que me transmitiu, cantei durante a sua caminhada, disse-lhe que estava muito orgulhosa, sorri-lhe e agradeci-lhe, do fundo do coração, o tempo que esteve connosco e tudo que me ensinou …
… Daqui.

Desta casa apertada, onde me sinto tão livre.
Tenho saudades do meu refúgio, dos meus livros, dos meus cadernos…
… das minhas histórias inventadas, dos meus pensamentos.
… Em que nos sentimos pequenos,
Em que nos pedem silenciosamente algo que sabemos ser incapazes.
Há momentos de raiva calada, há momentos de fúria contida…
Há momentos em que repensamos naquilo que somos, no que queremos,
Naquilo que podemos mudar em nós, sem nos perdermos,
Há momentos em que pensamos na mudança de forma a estar mais perto dos outros.
Há momentos em que temos vontade de investir…
Há momentos em que reconhecemos não conseguir.
Há momentos de desilusão, de decisão, de cobardia…
Há momentos assim, em que nos sentimos envergonhados, confusos, tristes…
… Deixámos todos lá fora e ficámos só os dois, deitados nesta cama. …Apenas os nosso rostos existiam, frente a frente. Apenas os nossos olhos comunicaram.
Sorriste. E eu, verti uma lágrima silenciosa… e um sorriso.
O sorriso é para ti, é teu, guarda-o.
A lágrima é minha… desculpa, é só minha…
… Que, e apesar de alguns dissabores, a vida dos outros ficou mais rica depois da nossa passagem…
É bom sentir que os nossos amigos são amigos dos outros, a nossa família é a família dos outros, os nossos refúgios são uma casa de portas abertas…
É muito bom dividir amigos, confidentes, abraços...
Partilhar um segredo… Porque as cumplicidades são construídas através da partilha.
E é engraçado verificar que nos apaixonamos pelas imagens que fazemos dos outros, mesmo que não os conheçamos…
E é ainda é mais engraçado verificar que quando “descobrimos” os outros, em vez da provável desilusão, pode nascer uma grande amizade.
PS: Apeteceu-me enviar-te um enorme abraço (mesmo sabendo que não o vais receber)…
Comecei 2005 em férias. Tirei a primeira semaninha e passeei pelo norte e por Espanha. Tinha programado regressar na quarta-feira… O destino é muito brincalhão e só me permitiu regressar hoje.
Nos primeiros dias estive numa pequena aldeia perto do fundão. Durante o dia fiz longas caminhadas ao longo do rio. Paisagens lindas, autênticas…

à noite o frio apenas permitia que passasse o serão a ler frente à lareira.

Trouxe abóbora, chá de ervas, eucalipto para as minhas infusões, e acima de tudo muita calma… Depois Salamanca, Valladolid… e um até já à minha mana mais nova.
De regresso… Cárceres. Um convento lindo, uma refeição, um descuido… e o carro onde viajava apenas poderia ser retirado daqueles portões hoje de manhã. Duas personagens numa linda cidade, cheia de vida, de festas, de crianças que aguardavam que os rebuçados lhes fossem atirados pelos carros onde desfilavam os reis magos. Uma cidade com música dentro das muralhas…

Um rapaz que cantava e tocava uma mistura de cantos ciganos com melodias medievais. Mágico!
Hoje…

...tive saudades do mar. Cheguei com pressa muito cedo e fui até ao meu bar favorito.
Era um Domingo de Manhã, poucos dias antes do Natal. Ela sabia que, em todos os natais havia na mesa de sua mãe, de sua tia, de sua avó, o mesmo bolo. Sabia que era uma receita “de família” e que mais tarde ou mais cedo deveria aprender e apenas ensiná-la às suas filhas mulheres… Chegara a sua vez de aprender, fizera 14 anos no Setembro desse ano.
Acompanhada de sua mãe chegou a casa da tia mais velha, da mais sábia, da mais antiga… Tirou o casaco e colocou-o num bengaleiro demasiado antigo, beijou todas as mulheres que estavam presentes e esperou as que faltavam. A mais antiga recebia todas que chegavam e lembrava que já era tarde, que o bolo tinha que levedar por 3 horas, que era urgente que se começasse a fazer a massa.
Num autêntico reboliço provocado por demasiada gente numa cozinha minúscula daquele rés-do-chão, as mulheres começaram a juntar os ingredientes. Umas na única bancada existente entre o lava-loiça e o fogão, outras na mesa da cozinha, todas elas bateram a massa sobre as ordens da mais velha… Ela não estava autorizada nesse ano a intervir na confecção. Devia ficar a ver, sem mexer, atenta, e aprender tudo aquilo que as mulheres faziam. A mais velha fez uma reza, supôs a jovem rapariga que seria para fazer crescer o bolo. Tapou o enorme alguidar e mandou todas as mulheres para a sala.
Lembro-me muito bem desta reunião. Já lá vão uns anos, mas lembro-me de todas as palavras e de todos os efeitos que tiveram em mim.
As mulheres começaram a falar de tudo um pouco… Era engraçado para mim ouvi-las falar dos seus problemas. Senti que até àquele dia não conhecia a minha família. Fiquei com a sensação que a confecção dos bolos era importante, uma tradição, mas que o principal objectivo era a união de todas as mulheres. Falaram comigo, e acreditem que nunca me tinha passado pela cabeça que estas mulheres fossem tão malandras. Perguntaram-me coisas sobre a escola, sobre namorados, … e eu, corada, contei!
Logo depois, a mais velha começou a cantar e todas as outras fizeram o mesmo. Numa língua que não era a nossa, nem era aquelas que aprendi na escola. Gostei dos cânticos que ouvi… “- Não te preocupes minha querida, também isto vais aprender”. E como eu queria aprender aquilo! Era lindo… Comoveu-me! Mais tarde disseram-me que estes cânticos eram muito antigos, que tinham 6 gerações, que eram cânticos de força, de esperança, de união. E disseram-me, tinha eu apenas 14 anos toda a verdade, que o destino das mulheres da minha família havia sido amaldiçoado há 6 gerações.
A mais antiga começou a contar a história que traria destinos cruéis. Contou a história daquele que foi o culpado pela maldição que os Deuses nos impuseram. Contou como ele foi cruel com demasiadas mulheres e de como os Deuses castigaram a sua filha e as filhas desta e as filhas destas. Contou que a maldição seria até à sétima geração… e eu era a sexta.
Depois de ouvir terríveis destinos, contaram-me o meu castigo. A solidão que teria que suportar. Porque o homem semeou solidões a todas que abandonou. Contaram-me o sétimo e último. O que está destinado à minha filha mais velha que ainda não nasceu… Será filha do mar e só ao seu lado poderá obter alguma serenidade. Será demasiado boa e terá o poder de sofrer por todos que a procurem. O castigo dela será recolher em si todas as tristezas e sofrimentos dos outros… Isto porque o homem espalhou sofrimento, torturou e matou todas as que abandonou…
Foi esta a história que me contaram. Hoje continuo só… Sei fazer o bolo, sei aquele cântico de cor, sei transmitir força e aliviar os males dos outros… e ensinarei à minha filha mais velha que ainda não nasceu toda a sabedoria para aceitar o destino que os Deuses ditaram.